A vida de Ana
outubro 2007
Estava ela parada no ponto esperando o ônibus que nunca vinha, esperando sem nenhuma expectativa, deixando a vida passar como se fosse um poste, estática e muda. Não queria muito da vida, aliás, ultimamente não queria nada. O frio estava bom, o sol também, a chuva nem percebia, o vento não incomodava. Era tudo mecânico: acordar, se lavar, café, ponto, ônibus, serviço, almoço, serviço, ponto, ônibus, casa, jantar, banho e cama. Já não sentia prazer, e nem se dava conta disso, tudo lhe parecida igual, todos dias eram iguais, nada faltava. Não reclamava, ia reclamar de quê? Tinha o que lhe era necessário, e a vida passava apressada e se repetia todos os dias, até aquele momento.
Não se sabe exatamente o que a despertou daquele ópio diário, se o foi o pingo da chuva em seus lábios, se foi o doce perfume que lhe invadiu as narinas ou a luz de algum veículo que a cegara, tudo foi simultâneo. O certo é que a vida de Ana, nunca mais foi a mesma…
Todos os dias, agora, Ana se prepara para aqueles minutos, os doces minutos, seus dias inteiros são levados à sonhos. E as horas são ansiadas, os minutos esperados angustiamente, e quando ele chega, o extase, é o tempo que agora pára. Nem se imagina tocando aquela pele macia, pelo menos ela pensa assim, ou olhando aqueles olhos cinzas, tão profundos como o mar. Não se permite imaginar o fazendo, nem mesmo seus lábios roçando os dele, é que Ana já morre todo dia um pouquinho ao vê-lo passar, calmo e tranquilo, como se a vida o acompanhasse sem pressa, como se tudo lhe fosse um complemento. Seu toque lhe seria fatal, e como poderia perder esses momentos? Não podia, era melhor imaginá-lo inatingível, a tê-lo uma única vez e perder seus doces minutos….

